SOLIDARIEDADE por Maria Gorjão Henriques

Maria Gorjão Henriques

Mentora e organizadora do I e II Congresso Internacional de Consciência Sistémica
realizados em Portugal.

 

O conceito de Solidariedade implica ter um espaço interno para incluir o outro dentro de nós, mas, para que isso aconteça da forma certa, o outro precisa de ser incluído com total aceitação, e sem que queiramos mudar nada na sua dimensão humana, familiar, social ou racial.

 

A Solidariedade verdadeira implica perguntar, organizar, materializar e proporcionar ao outro o que ele precisa, à maneira dele e respeitando a sua cultura e modo de Vida. Esse caminho interno é longo e pressupõe algum desenvolvimento pessoal e espiritual, para que saibamos caminhar da empatia até à compaixão, com muita humildade, sem nos substituirmos ou enfraquecermos a dignidade.

 

Desde a conceção até ao nascimento, tudo tem uma ordem.

Como seres humanos, estamos vinculados a uma imensidão de sistemas. Desde o nosso corpo, à família, ao país, ao continente que pertencemos. Todos eles formam um sistema integrado e interrelacionado que nos influencia, sem estarmos conscientes.

Precisamos de aprender a viver em função deste entendimento para integrarmos, “da pele para dentro”, que tudo o que acontece com o outro também nos diz respeito e, ao mesmo tempo, influencia o desenvolvimento da consciência coletiva, a partir da

qual todos nós nos alimentamos, nos níveis mais profundos do nosso Ser.

 

Ainda somos muito pouco conscientes das reais motivações que nos fazem abraçar certos projetos, tomar determinadas decisões e até mesmo escolher e determinar o que tantas vezes chamamos de Missão de Vida.

A questão de fundo prende-se com as reais motivações que sentimos quando decidimos querer Ser Solidários, e oferecer o nosso tempo e energia a alguém, ou mesmo a uma causa ou projeto de Solidariedade Social?

 

Temos vários níveis de lealdades que nos movem até sermos capazes de discernir o que, na nossa pureza e essência, se expressa através de nós.

 

Até conseguirmos ser lúcidos e conscientes de todas estas influências sistémicas somos movidos e motivados a atuar através de vários níveis de lealdades, independentemente de algumas partes de nós poderem estar ao serviço do algo maior, a partir do qual a vibração da nossa Alma se expressa. Na realidade, somos movidos por vários níveis de consciência, e cada um desses níveis está ao serviço da completude, da inclusão e da necessidade de equilíbrio que em algum momento do tempo foi perdida.

 

Podemos sentir-nos chamados a viver a nossa vida através de projetos de solidariedade, mas é importante observar que existem vários níveis de motivação que nos podem convocar a viver dessa forma:

  1. A nossa Alma ter o chamamento natural inato para movimentos de solidariedade, porque nascemos com um determinado propósito e sentimo-nos movidos, empurrados, para que a vida se expresse através da forma como nos doamos. Então, permitimos que o que se expressa através de nós, reverbere para fora de forma natural;
  2. Sentirmo-nos motivados a envolvermo-nos nesses projetos como uma forma de compensação para com alguém, ou para com uma memória familiar de injustiça, humilhação, pobreza, vazio, destinos difíceis ou algum evento marcante da nossa família de origem que, de alguma forma, espiamos através da maneira como nos doamos. Neste caso, procuramos compensar, através dos outros, essas memórias próprias do clã.
  3. Alguns traumas acumulados da nossa infância, e, por sentimentos de carência, precisarmos de dar aos outros o que na verdade não tomamos para nós ou de nós próprios.

 

Nos últimos dois casos, a necessidade de reconhecimento e de compensação servem de motor para que a pessoa se dedique, de corpo e Alma, a uma causa que, na verdade, mais não é do que a necessidade de devolver ao clã a sua dignidade ou o sentimento de inclusão, de forma a ser vista por si mesma.

É possível que em cada um de nós resida um pouco de cada uma destas versões e motivações mais inconscientes, que a dança da Vida nos mostra através dos véus de ilusões que criamos, e que vamos derretendo à medida que evoluímos e lidamos com a princípio da realidade.

É sempre mais fácil projetarmo-nos fora de nós, e vermos nos outros as suas dores e vazios, do que mergulhar na verdadeira solidariedade para connosco próprios, e assumirmos que essas dores também são nossas.

 

A vibração do coração precisa de ter o seu espaço interior para reverberar para o exterior.

 

Seremos todos capazes de ser solidários no dia em que aprendermos a viver pacificados em nós. Nessa altura, não será precisa solidariedade, porque todo o Ser Humano estará a ocupar o seu lugar, e não haverá desigualdades sociais.

 

Até lá, só posso expressar a minha profunda gratidão por todos nos sentirmos empurrados a compensar dores e lealdades inconscientes desta forma “solidária”. Apesar da projeção, muita coisa é feita, e muitas Vidas encontram um porto seguro!!!

 

 

Bem-haja à Vida!

Maria Gorjão Henriques 

 

 

 

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O DIREITO SISTÉMICO É UMA LUZ NO CAMPO DOS MEIOS ADEQUADOS DE SOLUÇÃO DE CONFLITOS por Sami Storch

A Visão do DIREITO SISTÉMICO, e a sua ação,  por Sami Storch.

 

Sami Storch é Juiz de Direito no Estado da Bahia, Mestre em Administração Pública e Governo e autor da expressão “Direito Sistémico” e do blog com o mesmo nome.

 

Convidámo-lo a escrever um pouco sobre a “sua  área”,
pelo que abaixo publicamos um dos textos que gentilmente nos enviou. 

 

 

(…) Há muito que se observa a incapacidade do Poder Judiciário em processar e julgar a quantidade de ações que lhe são apresentadas. A estrutura pessoal e material existente não é suficiente.

Por outro lado, já é reconhecida no meio jurídico e na sociedade, a necessidade de novos métodos de tratamento dos conflitos. Métodos que permitam não apenas uma decisão judicial que estabeleça, como deve ser, a solução para cada conflito — dizendo às partes quais os respetivos direitos e obrigações , mas também dar paz aos envolvidos. Permitindo que eles mantenham um bom relacionamento futuro e, inclusive, tratem de forma amigável outras questões que possam surgir.

 

A tradicional forma de lidar com conflitos no Sistema Judiciário já não é vista como a mais eficiente.

 

Uma sentença de mérito, proferida pelo juiz, quase sempre gera inconformismo e, não raro, desagrada a ambas as partes. Em muitos casos enseja a interposição de recursos e manobras processuais, ou extraprocessuais, que dificultam a execução. Como consequência, a pendência estende-se no tempo, gerando custos ao Estado, incerteza e sofrimento para as partes envolvidas.

 

Tal fenómeno é ainda mais visível nos conflitos de ordem familiar, que têm origem quase sempre numa história de amor, e geralmente envolve filhos.

 

A instrução processual é nociva para todos os envolvidos.

 

Cada testemunha que depõe a favor de uma parte pode trazer à tona fatos comprometedores relativos à outra, alimentando ressentimento e dificultando a paz. Assim, mesmo depois de julgada a ação, esgotados os recursos e efetivada a sentença, o conflito permanece.

 

A conciliação no âmbito judicial está instituída há bastante tempo na legislação brasileira, e é largamente aplicada nas causas cíveis, com mais ênfase naquelas relativas às Famílias.

Também para o tratamento relativo aos crimes de menor potencial ofensivo, a mesma lei prevê a composição civil dos danos como forma de resolver conflitos, evitando-se uma ação penal. Mas outros métodos também se tornam necessários para desafogar os tribunais e resolver os conflitos.

 

 

Há 12 anos que utilizo técnicas de constelações familiares sistémicas, obtendo bons resultados na facilitação das conciliações e na busca de soluções que tragam paz aos envolvidos nos conflitos submetidos à Justiça, em processos da “Vara de Família e Sucessões”, e também no tratamento de questões relativas à infância e juventude e à área criminal, mesmo em casos considerados bastante difíceis.

 

Trata-se de uma abordagem originalmente utilizada como método terapêutico pelo terapeuta e filósofo alemão Bert Hellinger, que a partir das constelações familiares desenvolveu uma ciência dos relacionamentos humanos, ao descobrir algumas ordens (leis sistémicas) que regem as relações. Essa ciência foi batizada pelo seu autor com o nome de Hellinger Sciencia.

O conhecimento de tais ordens conduz-nos a uma nova visão do Direito, e de como as leis podem ser elaboradas e aplicadas de modo a trazerem paz às relações.

 

A expressão “Direito Sistémico”, termo cunhado por mim quando lancei o blog Direito Sistémico (direitosistemico.wordpress.com), surgiu da análise do Direito sob uma ótica baseada nas ordens superiores que regem as relações humanas, conforme demonstram as constelações familiares desenvolvidas por Hellinger.

 

Segundo essa abordagem, diversos problemas enfrentados por um indivíduo (bloqueios, traumas e dificuldades de relacionamento, por exemplo) podem derivar de fatos graves ocorridos no passado não só do próprio indivíduo, mas também de sua família, em gerações anteriores, e que deixaram uma marca no sistema familiar. Mortes trágicas ou prematuras, abandonos, doenças graves, segredos, crimes, imigrações, relacionamentos desfeitos de forma “mal resolvida” e abortos são alguns dos acontecimentos que podem gerar emaranhamentos no sistema familiar, causando dificuldades em seus membros, mesmo em gerações futuras.

 

As constelações familiares consistem num trabalho onde pessoas são convidadas a representar membros da família de uma outra pessoa (o cliente), e, ao serem posicionadas umas em relação às outras, sentem como se fossem as próprias pessoas representadas, expressando os seus sentimentos de uma forma impressionante, ainda que não as conheçam.

 

Vêm à tona as dinâmicas ocultas no sistema do cliente, que lhe causam os transtornos, mesmo que relativas a fatos ocorridos em gerações passadas, inclusive fatos que ele desconhece. Podem-se propor frases e movimentos que desfaçam os emaranhamentos, restabelecendo-se a ordem, unindo os que no passado foram separados, proporcionando alívio a todos os membros da família e fazendo desaparecer a necessidade inconsciente do conflito, trazendo paz às relações.

 

“O Direito sistémico vê as partes em conflito como membros de um mesmo sistema, e ao mesmo tempo vê cada uma delas vinculada a outros sistemas dos quais simultaneamente fazem parte (família, categoria profissional, etnia, religião etc.) e procura encontrar uma solução que, considerando todo esse contexto, traga maior equilíbrio.”

 

Há temas que se apresentam com frequência: como lidar com os filhos na separação, as causas e soluções para a violência doméstica, questões relativas à guarda e alienação parental, problemas decorrentes do vício (em geral relacionado a dificuldades na relação com o pai), litígios em inventários nos quais se observa alguém que foi excluído ou desconsiderado no passado familiar, entre outros. Cada um dos presentes, mesmo os que se apresentem apenas como vítimas, pode frequentemente perceber de forma vivenciada que há algo na sua própria postura ou comportamento que, mesmo inconscientemente, estava a contribuir para a situação conflituosa. Essa perceção, por si só, é significativa e naturalmente favorece a solução.

 

Em ações de família, muitas vezes uma constelação simples, colocando representantes para o casal em conflito e os filhos, é suficiente para evidenciar a existência de dinâmicas como a alienação parental e o uso dos filhos como intermediários nos ataques mútuos, entre outros emaranhamentos possíveis. Essas explicações têm se mostrado eficazes na mediação de conflitos familiares e, em cerca 90% dos casos, as partes reduzem resistências e chegam a um acordo.

 

Em alguns tribunais, no Ministério Público e na Defensoria Pública, têm sido realizadas experiências na área criminal, com o objetivo de facilitar a pacificação dos conflitos e a melhoria dos relacionamentos, incluindo réu, vítima e respetivas famílias. As constelações têm servido de prática auxiliar no trabalho com a Justiça restaurativa, ajudando a preparar as partes e a comunidade envolvidas, para que possam dar um encaminhamento adequado à questão.

 

No âmbito penitenciário, multiplicam-se as práticas, visando proporcionar aos presos uma oportunidade de compreender as dinâmicas ocultas por trás do padrão criminoso, e olhar para onde está o amor que, de forma cega, os fez repetir os comportamentos antissociais já ocorridos em gerações passadas, na história da própria família.

As reações dos participantes têm indicado resultados notáveis.

 

 

Independentemente da aplicação da lei penal, acredito que as constelações possam reduzir as reincidências, auxiliar o agressor a cumprir a pena de forma mais tranquila e com mais aceitação, aliviar a dor da vítima e, quem sabe, desemaranhar o sistema para que não seja necessária outra pessoa da família se envolver novamente em crimes, como agressor ou vítima, por força da mesma dinâmica sistémica.

 

Durante e após o trabalho com constelações, os participantes têm demonstrado boa absorção dos assuntos tratados, um maior respeito e consideração em relação à outra parte envolvida, além da vontade de conciliar — o que se comprova também com os resultados das audiências realizadas semanas depois e com os relatos das partes e dos advogados da comarca.

SAMI STORCH

 

 

 

 

SAMI STORCH é também um dos palestrantes do CONGRESSO DE CONSCIÊNCIA SISTÉMICA, 
e estará presente em DUAS palestras na área temática DIREITO SISTÉMICO.

 

 

 

 

 

Assista também à live de SAMIT STORCH com a fundadora do Congresso, Maria Gorjão Henriques,

sobre o tema DIREITO SISTÉMICO.

 

 

 

 

 

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“22 de Abril: Um Dia Para Lembrar Quem Somos” por Daniela Migliari

Daniela Migliari é jornalista e escritora, nascida em Brasília, encontrou no ofício de escrever uma forma amorosa de entrar em contato consigo mesma, com toda a riqueza e complexidade que encerra a experiência humana. Desde 2016, estuda as Constelações Familiares como pós-graduanda da Hellingerschule.

 

Convidamo-la a partilhar um texto sobre o Dia da Terra ( 22 de Abril) , pelo que ela generosamente nos deixa este contributo:

 

“No dia 22 de abril, é celebrado o Dia da Terra. Ao falar deste planeta azul, cujos continentes encontram-se entre a imensidão de suas águas, recorro à imagem dos oceanos para ampliar algumas compreensões:


Os peixes não compreendem a água em que estão mergulhados: simplesmente fluem por ela, e existem em função de tudo que ela lhes provê e proporciona. Assim como eles, nós, homo sapiens, também habitamos esta Terra com limitada consciência do que isso representa para a própria existência.

Esta percepção parece repetir, num ciclo mais amplo, o caminho que uma célula recém-fecundada percorre até perceber-se como um ser humano adulto, feito e refletido acerca do que significa ter nascido dos seus pais e estar vivo. Faz parte da condição humana lidar, aos poucos, com aquilo que é e ainda não foi visto: a amplitude da realidade!

 

A noção de que os seres humanos estão separados da Natureza, polarizados uns dos outros, parece ignorar que a Terra é redonda, gira e que cada ser vivente – literal e concretamente – caminha por terrenos onde toda e qualquer vida que já existiu está depositada em camadas e camadas de pó, de matéria orgânica, que a todos sustenta e provê com alimentos.

 

Já parou pra pensar que nós estamos em pé, sustentados sobre os nossos antepassados?

Que andamos sobre eles e sobre toda a Vida que permeou suas existências? 

Sejam estas vidas provenientes do reino hominal, animal, vegetal ou mineral?

Já nos demos conta de que tudo que comemos diariamente provém deste mesmo terreno em constante transformação?

 

Nos percebemos e nos distinguimos na relação

 

Qual é o referencial que, na prática e no dia a dia, auxilia a ampliar a visão e ter um tanto mais de consciência sobre quem somos e sobre o Todo? É o campo das relações! 

 

Quando olho para o outro me percebo como alguém distinto dele. É na relação que nos descobrimos mutuamente, como seres vivos, em atividades diversas e em trocas constantes. Em comum, somos todos filhos desta mesma Terra e estamos naturalmente submetidos às Suas leis – princípios da Vida vivenciados em Suas diferentes expressões.

 

Assim como a gravidade, o magnetismo e a eletricidade têm suas manifestações peculiares, cujos efeitos são observados por pessoas atentas àquilo que se mostra, o mesmo se dá no campo das relações. Seus efeitos foram e são observados e decodificados para a humanidade por meio da atuação de Suas leis. É na referência do diferente que percebemos quem somos com mais clareza. E o que vemos ao olhar de forma mais ampla para nós mesmos e para outros seres?

 

Vemos que também somos Natureza, frutos deste orbe cuja idade de 4,5 bilhões de anos é curiosamente calculada, também, em função de algo visto em… relação!

 

A datação de Sua existência é feita por meio dos átomos de urânio encontrados em fragmentos de meteoritos vindos de outras partes do Universo. Segundo cientistas, isso acontece pois é muito difícil realizar este cálculo pelas rochas exclusivamente terráqueas, posto que estão em constante transformação e isso dificulta o estabelecimento de referências comparativas dos elementos que auxiliam a colocar o tempo em perspectiva.

 

Portanto, quando Bert Hellinger afirma: “Não somos filhos dos nossos pais; nós somos os nossos pais” ele seguramente nos levou para o lugar mais próximo possível que nos leva a compreender que não somos simplesmente terráqueos: somos a Terra em Si mesma e em constante transformação.

 

Somos frutos da diversidade deste imenso Ser Vivo, Se experimentando ao longo da Sua história, em ciclos naturais e contínuos na imensidão deste planeta que, a cada medição de urânio (e já houve muitas) se descobre mais e mais antigo.

 

Um dia para lembrar, também, o Brasil em mim

 

O dia 22 de abril também é uma data que convida a olhar para a origem do Brasil, esta nação filha do encontro de dois sistemas: europeus e povos indígenas. Foi neste dia, no ano de 1500, que exploradores portugueses descobriram e **também foram descobertos** por nativos indígenas que viviam neste conjunto de terras, posteriormente denominado Brasil.

 

Encontrar a essencialidade que une ambos – filhos do mesmo planeta; compostos da mesma constituição humana em sangue, ossos, músculos e órgãos; nascidos igualmente de uma mãe e um pai; com suas vidas expressas pelo bombeamento no tum-tum de tão semelhante coração… é encontrar a conexão que é, sempre esteve lá e une a todos: a humanidade em nós!

 

Ao olhar para tudo como foi, temos a oportunidade de nos conectar com o Essencial. Para compreender isso melhor, recorro ao que acontece no encontro de um casal, por exemplo. Dois sistemas passam a interagir e ambos se enriquecem no complemento daquilo que é diferente. Para além da paixão à primeira vista, é na abertura para o novo que ambos vão além do que foram até aquele encontro.

 

A união entre dois seres diferentes gera histórias complexas, que envolvem muito amor e muita dor de amor. Os filhos deste encontro passam boa parte da vida “des-cobrindo” as riquezas que os habitam: incluem excluídos, reordenam hierarquias invertidas, equilibram trocas provenientes desses dois sistemas. Trata-se de um caminho individual e único para cada ser… Um ponto, porém, é consenso na visão sistêmica da Vida:

 

Julgar, condenar e excluir um sistema em detrimento do outro gera dor, desequilíbrio e incompletude. Filhos precisam de ambos e se apropriam desta inteireza em si mesmo a cada passo que dão no caminho. Como alguém que desembrulha um presente aos poucos, a cada camada, se dá conta do quão belo é. Até perceber-se assim, grato e a cada dia mais inteiro, o ser humano vive em movimentos de compensação da união destes dois sistemas: nesta busca, cria uma oposição, então algo novo surge e se expande dali…

 

Uma nova aventura se inicia

 

Enriquecido de ambos os sistemas, chega o tempo em que o filho percebe que já é hora de dar-se conta de que cresceu; que não lhe cabe ser o juiz dos pais e suas histórias; que graças a esta união tem a vida que tem; que se envolver e olhar por mais tempo para a dor dos pais o impede de viver a vida que recebeu; que alguns assuntos são grandes e pesados demais para ele – o pequeno diante desta relação; que ao se retirar do meio dela, ele pode crescer e ter a certeza de que já não cabe mais na “cama dos pais” – e que permanecer ali está fora de lugar.

 

Cada filho, a seu tempo, é convidado – pela vida e por si mesmo – a despedir-se da cama dos pais, a ocupar o seu próprio lugar e seguir adiante com todos no coração…

Que cada ser, a seu tempo, possa amar a sua própria existência e ir além do amor à primeira vista: ampliando seu olhar para as belezas e mistérios da segunda, terceira, quarta, quinta, N vistas…

Que a cada ampliação de olhar, possamos ver a beleza do que somos: herdeiros de nós mesmos e da história sagrada da Mãe-Terra, aquecida e vivificada pelos raios do misterioso, distante e, ainda assim, tão presente Pai-Sol!

 

Filhos estrelas que somos, nos percebemos em meio às oitavas que se desvelam no macrocosmo da Vida. Ante a Sua grandeza, nos percebemos poeira cósmica e, também, filhos da Existência em Si mesma, cidadãos do Universo! Fato expresso na belíssima afirmação de Carl Edward Sagan: “Somos feitos de poeira de estrelas. Nós somos uma maneira de o cosmos se autoconhecer”… E se relacionar…”

Fatos concretos acerca das datas mencionadas no texto: 

 

OBS 1: O Dia da Terra, cuja finalidade é criar uma consciência comum aos problemas da contaminação, conservação da biodiversidade e outras preocupações ambientais para proteger a Terra, foi criado pelo senador norte-americano Gaylord Nelson, no dia 22 de Abril de 1970.

 

OBS 2: A data da “descoberta ou descobrimento do Brasil” refere-se à descoberta por europeus do território atualmente conhecido como Brasil. Este momento é muitas vezes entendido como sendo o do avistamento da terra que então denominaram por Ilha de Vera Cruz, nas imediações do Monte Pascoal, pela armada comandada por Pedro Álvares Cabral, ocorrida no dia 22 de abril de 1500. A nomenclatura deste evento histórico considera o ponto de vista dos povos do chamado “Velho Mundo”, que tinham registros na forma de História (escrita), e portanto se trata de uma concepção de História contada por europeus (eurocentrada). Marca-se, então, o início de uma colonização portuguesa em territórios que posteriormente formaram o Brasil, em toda a complexidade dos fatos, narrativas e interpretações que se desdobraram dali em diante.

 

 

"22 de Abril: Um Dia Para Lembrar Quem Somos" por Daniela Migliari

 

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Envie-nos email com a sua motivação para: embaixador@conscienciasistemica.pt

 

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"22 de Abril: Um Dia Para Lembrar Quem Somos" por Daniela Migliari

 

 

 

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O Sal da Vida – Pedagogia Sistémica, um Aliado do Ato Educativo, por Antonia del Castillo

 

Antonia Del Castillo é Formadora e Facilitadora de Constelações, Presidente de La Montera e Pedagogia Sistémica, bem como membro Didacta da AECFS.

 

Convidamo-la a partilhar a sua visão sobre a Pedagogia Sistémica e a importância de ter uma visão sistémica e integrada sobre este tema, pelo que ela generosamente nos deixa este texto:

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O Sal da Vida

Pedagogia Sistémica, um Aliado do Ato Educativo

 

“Era a última turma do curso, as notas já estavam afixadas, o livro estava terminado e perguntei-me o que poderia fazer naquela hora em que estava com o grupo do 3º ano do Ensino Secundário (14-15 anos de idade) que nos iria enriquecer a todos; no momento em que os tirei da sua habitual sala de aula e os levei para a sala de Biologia, onde poderíamos assistir a um documentário sobre a natureza. Quando entrámos, esperei que se sentassem e olhei-os, e então esta pergunta veio-me à cabeça:

O que aprenderam nesta disciplina que vos sirva para a vida? E esclareci: Que sentimentos têm neste momento do fim do curso, depois de tantas horas passadas entre vós e com os professores? Qual seria o mais significativo?

Começaram a falar e a expressar o que sentiam, uma estudante comentou que o mais significativo era que a forma de se relacionarem com os seus amigos tinha mudado, sentiu que agora era mais profunda e os laços mais fortes. Outra disse que tinha encontrado o amor e os restantes comentavam espontânea e sinceramente, criando um clima de respeito e confiança; Finalmente, uma estudante sentiu a necessidade de expressar algo que a tinha feito sentir-se mal, a chegada em Maio da  sua tutora após ter estado de licença durante vários meses (a ausência da tutora deveu-se à morte do seu filho de quatro anos após uma longa doença), sentiu que estava muito “branda”.

Quando ouvi esta palavra, apercebi-me da situação e respondi-lhe:

– Claro, como pode ela não ser “monótona” se perdeu o sal da sua vida, a coisa que mais amava, o seu filho!

Naquele momento, houve um silêncio impressionante. Continuei a falar e disse-lhes: “conseguem imaginar como se deve sentir uma mãe quando perdeu um filho? Conseguem apreciar a força da vossa professora quando ela vai trabalhar e conhece os seus alunos e percebe que o seu filho já não terá a vossa idade?”

Esta é uma lição de vida que o seu professor lhe dá e pode sentir-se privilegiado porque, de certa forma, estar ao lado da dor de uma pessoa é partilhá-la com ela e isto não é fácil e também fez a sua parte para a ajudar a voltar à vida.

A estudante disse que estava a ficar emocionada e que não o tinha realmente visto dessa forma, os outros colegas acenaram com a cabeça, alguns disseram que tiverram “arrepios” e um estudante, muito emocionado e com lágrimas nos olhos, disse que compreendia muito bem o professor, porque tinha perdido um irmão mais velho e que sentia muito a sua falta.

Os seus colegas de turma não sabiam desta circunstância de Josué. Disse-lhe que a vida já lhe tinha apresentado uma situação difícil e que isto o tornava mais forte. Disse-lhe para pensar no que o seu irmão iria querer para ele e Joshua respondeu, que o seu irmão ficaria feliz em vê-lo feliz e em estudar como ele estava a fazer.

Outra estudante, Aisha, quis expressar como tinha sido difícil para ela durante a longa doença do seu pai, que vivia em Marrocos, uma vez que ela estava separada dele aqui em Espanha.

Terminámos, cada um dizendo um sentimento e desejando aos outros um bom Verão.
Para mim, esta foi a melhor aula que pude dar naquele dia, simplesmente propus uma pergunta e eles fizeram o resto. Soube bem abrir o espaço aos sentimentos e poder oferecer-lhes outra visão da situação com o tutor.

 

Os estudantes precisam ser orientados a nomear o que estão a sentir e a aceitar que nenhum sentimento é errado. Só têm de o colocar no seu lugar e encontrar o seu significado. A Pedagogia Sistémica com a abordagem de Bert Hellinger proporciona um olhar integrador que ordena e simplifica a complexidade do acto educativo e as relações nos sistemas humanos.

A visão da Pedagogia Sistémica permeou toda a sala de aula abrindo os corações de todos, uma vez que se trata de um olhar amoroso, que não julga e que, por sua vez, permite que a gratidão surja.

VIVER É APRENDER

APRENDE-SE QUANDO SE TOMA

ACEITA-O QUANDO LHE É GRATO”

Pode também assistir aqui à live de Maria Gorjão Henriques com Antonia del Castillo , sobre Educação  Sistémica – “Una mirada amorosa a la Educación”.

 

 

 

Antonia del Castillo é também uma das palestrantes do Congresso de Consciência Sistémica, no qual facilitará uma palestra e um workshop imersivo na área temática Educação Sistémica,

 

Para consultar o programa completo do Congresso – clique aqui! 

 

 

 

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“A Doença é um Grito da Alma que nos Chama Para a Vida!” – Vera Boeing

Vera Lúcia Boeing é psicóloga e mestre em Psicologia e Formadora em Constelações Sistémicas Familiares, Organizacionais e de Saúde, tendo também formação internacional em Nova Medicina Germânica e Panorama Social. Atua na área clínica e organizacional, desde 1981, com desenvolvimento de pessoas e equipas.

No âmbito da comemoração do Dia Mundial da Saúde (7 de Abril), convidamo-la a partilhar a sua visão sobre a Saúde e a importância de ter uma visão sistémica e integrada sobre este tema, pelo que ela generosamente nos deixa este texto:

 

” Como já dizia Hipócrates, pai da medicina ocidental, ”mente sã, corpo são” e, quando defino que, “a doença é um grito da alma que nos chama para a vida”, considero ainda que, se curamos a alma, curamos o corpo!

Este é o meu entender e te convido a passear por estas linhas, experimentando e desfrutando de tudo.

 

(…) Hamer e Hellinger pensaram sobre saúde e doença de uma forma, que podemos considerar, não inovadora, mas evoluída, pois olharam para o passado e resgataram aquilo que já era, de certa forma, praticado de maneira natural, por nossos ancestrais e que a própria biologia o faz. E se para haver evolução tem que haver preservação da informação, olharam para “memórias”, para o que foi preservado e nos deixaram um legado.

 

Dr. Hamer, decodificou aquilo que chama de “Cinco Leis Biológicas” que explicam as causas, o desenvolvimento, e a cura natural das “enfermidades” com base nos princípios biológicos naturais.

As Leis Biológicas que constituem esta verdadeira “Nova Medicina”, estão firmemente embasadas nas ciências naturais, e estão ao mesmo tempo em perfeita harmonia, com outras leis naturais, incluindo leis espirituais. E, é interessante que os espanhóis chamam a Nova Medicina Germânica (GNM) como “A Medicina Sagrada”, por essa verdade.

 

Bert Hellinger, com o conhecimento filosófico, depois psicológico e fenomenológico nos traz a compreensão sobre princípios da vida que chama de Leis do Amor, traduzindo aquilo que se mostra, vive-se e vê-se muito facilmente quando nos permitimos olhar aquilo que se mostra, ampliadamente.

 

(…) Quando Hamer diz que “a doença é um programa biológico de sobrevivência da espécie e do indivíduo”, Hellinger diz que “a doença é um movimento do espírito para curar a consciência familiar, levando o indivíduo a reconciliação com excluídos do seu clã”.

Hamer descobriu e comprovou que toda doença é a somatização de um conflito bloqueado. E Hellinguer diz que os conflitos bloqueados são rejeições à vida como ela é.

 

(…) Esse sofrimento, essa metáfora, é o que chamamos de doença, cuja “missão” é reconciliação entre um excluidor e um excluído, que haviam se desligado da vida e, o retorno a ela, consiste nesta reconciliação. Assim, neste olhar sistêmico das Constelações Familiares, o doente, descendente designado para denunciar esta exclusão e separação da vida, vai imitar os ancestrais com quem está intrincado, rejeitando a vida como ela é, excluindo ou sendo excluído. Quando o doente diz “sim” à sua situação, “sim” à doença, entra em sintonia com o movimento do espírito, iniciando-se a compensação adulta. E a força de cura começa a se manifestar.

 

(…) Nosso corpo é um depósito de memórias. Ele conta a história. É o resultado de todas as experiências, emoções, traumas e dores vivenciadas ao longo da nossa vida, desde o nosso nascimento. Tanto os lembrados como os não lembrados. E também nos habita a história que nossos ancestrais viveram ao longo das gerações. Levamos connosco os registros dos ocorridos e, mesmo que nos separemos da família de origem, levamos junto e isso nos condiciona, nos determina em silêncio, no nosso interior. E estas informações se mostram, na superfície, nas mais variadas e impensadas maneiras.

Daí a importância de aprendermos a conhecer e, sobretudo, escutar o corpo. Porque ele fala e somos falados por ele. E nesta expressão se manifestam sintomas múltiplos, indo até a enfermidade, e o que vem a luz é aquilo que carregamos, muitas vezes, sem saber.

 

O que é calado na primeira geração, a segunda leva no corpo!” Françoise Dolto

 

(…) A doença traz a mensagem e o caminho da cura só pode ser transitado através de um trabalho interior, buscando decifrar o que é que nos vem sendo dito, de que se trata e o que necessita ser escutado.

Também desejo que esta escrita tenha favorecido um novo olhar para a “doença”, acolhendo-a e agradecendo sobre o que ela tem a dizer. Qual a metáfora que o corpo está contanto para escutar este grito da alma chamando para despertar para a vida. Tomar a vida!

 

Assim, concluo este passeio com Nietzsche dizendo “Não gostaria de despedir-me ingratamente daquele tempo de severa enfermidade, cujo benefício ainda hoje não se esgotou para mim: assim como estou plenamente cônscio das vantagens que a minha instável saúde me dá, em relação a todos os robustos de espírito” – Nietzsche, Gaia Ciência, prólogo §3.

 

 

Para ler o artigo na íntegra clique aqui  –

Vera Boeing – “A doença é um grito da alma que nos chama para a vida”

 

Pode também assistir aqui à live de Maria Gorjão Henriques com Vera Lúcia Boeing , sobre o tema Saúde Sistémica

 

Vera Lúcia Boeing é também uma das palestrantes do Congresso de Consciência Sistémica, no qual facilitará uma palestra e um workshop imersivo na área temática Saúde Sistémica

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CONSCIÊNCIA SISTÉMICA_Os novos Paradigmas de Saúde e de Cura por Dr. Fernando Freitas

Dr. Fernando Freitas

 

 

Convidámos o Dr. Fernando Freitas a partilhar um pouco da sua visão sobre a a Consciência Sistémica e a Saúde, e ele generosamente, partilhou este texto: 

 

Ainda não conhece a evolução da Genética que está a revolucionar a Medicina e a Psicoterapia?

O conhecimento da Epigenética está a mudar radicalmente a forma como compreendemos as doenças e os comportamentos humanos. Em breve veremos novas formas de tratamento do Cancro, Doenças Autoimunes, Depressão, Psicose, e muitas outras enfermidades que trazem tanto sofrimento aos doentes e seus familiares.

 

Na minha jornada profissional de cura das doenças, que se iniciou em 1975 quando entrei na Escola Paulista de Medicina (atual UNIFESP), eu participei em muitas mudanças na forma de ver a Doença, o Doente, o Médico, a Medicina e a Saúde. Os conhecimentos científicos das várias áreas trouxeram uma luz capaz de revelar muitos fenómenos, que os profissionais conheciam, mas não tinham como explicar. A Física Quântica foi uma delas.

 

Há pouco tempo surgiu uma nova ciência que quebrou muitos paradigmas, e trouxe uma perceção da Vida que derrubou muitos dogmas na área da Saúde, e no relacionamento humano – a Epigenética

 

 

Ainda acredita que é um ser isolado, “dono” da sua própria vida, e que suas escolhas vêm apenas da sua mente, e só o afetam a si mesmo?

Ainda não descobriu que está profundamente conectado com o mundo que o cerca no presente?

 

Sabia que seu corpo e sua mente foram afetados pelas experiências de vida de várias gerações familiares do passado? E que hoje você é a ponte que vai determinar se as próximas gerações serão mais saudáveis ou mais doentias?

 

Ainda não sabe que tem o poder de fazer mudanças em si mesmo, na família e em todos os níveis de relacionamentos no presente e no futuro (na sua própria vida e na dos descendentes)?

 

Todos temos um enorme poder de transformação que está aprisionado nas nossas crenças mentais. É a nossa interpretação da Vida que cria a ilusão de mundo. A grande questão é: Como desenvolvemos essa interpretação?

 

  • Se nós mudarmos tudo se transformará na nossas Vidas?
  • Onde começamos a existir como ser humano?
  • Como é que a Vida se conectou connosco?
  • Você já alguma vez colocou estas questões a si próprio?

 

 

Afinal, o que é a Vida e qual é a sua relação com ela?

 

 

Todas estas questões nortearam grandes pesquisadores em várias fases do conhecimento. O grande objetivo é encontrar as bases de compreensão do ser humano, identificar as causas do sofrimento humano e descobrir formas de tratamento. 

 

 

 

 

Para continuar a ler o artigo na íntegra, por favor clique no link:

CONSCIENCIA SISTÉMICA_novos paradigmas de saude e cura_Dr. Fernado Freitas .docx

 

 

O Dr. Fernando Freitas é mais um dos Palestrantes presentes no Congresso Internacional de Consciência Sistémica, no qual facilitará uma palestra e um workshop imersivo na área temática SAÚDE SISTÉMICA.

 

 

 

Assista também à live da fundadora do Congresso, Maria Gorjão Henriques,  com o Dr. Fernando Freitas

sobre o tema SAÚDE SISTÉMICA.

 

 

 

Para consultar o programa completo do Congresso – clique aqui! 

 

 

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As Tradições de Cura Ancestrais Africanas e a Prática de Constelações Familiares

As Tradições de Cura Ancestral Africanas e a Prática de Constelações Familiares

Por Tanja Meyburgh, 2010

 

Tanja Meyburgh é psicóloga, treinadora e supervisora ​​de Constelações de Sistemas e Famílias, e é colaboradora regular do jornal internacional de constelações, The Knowing Field.

Fundadora das Constelações Africanas, é a principal pioneira no trabalho de constelações na África do Sul, com 18 anos de experiência especializada neste área.

Ajudou organizações na África do Sul envolvidas com dependência, adoção, trauma, violência política, desenvolvimento comunitário e diversidade e, recentemente, Tanja foi cofundadora do Ancestral Connections, que integra a dança e as constelações, e da REAL Academy.

O seu trabalho é descrito, por quem a conhece, como gentil e incisivo. Tanja mora na Cidade do Cabo e o seu nome e trabalho estão intimamente ligados à conexão entre as tradições de cura ancestrais, e a prática de constelações familiares.

 

Desde a minha primeira experiência com constelações, na tradição de Bert Hellinger, em 2002, que soube intuitivamente que algo africano estava no seu centro. Intui que havia algo realmente importante a ser descoberto no encontro entre África e o Ocidente, na Constelação Familiar, e isso deu início a uma longa busca.  Este conhecimento tornou-se a chave para entender e garantir a minha saúde e bem-estar, a dos meus clientes, e o treino de facilitadores”.

 

No artigo que escreveu a este respeito, Tanja Meyburgh, mostra quão delicado e cauteloso é falar sobre a cultura africana. Passar para o papel este tipo de informação da sociedade tradicional africana, que o faz usualmente através de canções e histórias, e do professor para iniciar, deixou Tanja muito hesitante.

Depois de entrevistar de alguns formadores e facilitadores negros africanos, as duas conexões mais óbvias entre as Constelações Familiares e as crenças tradicionais africanas são confirmadas.

 

1) o reconhecimento de que nossos ancestrais são vitais para o nosso bem-estar:

“A cultura Zulu tem uma forte crença nos Ancestrais “Amadlozi”, em relação a se conectar com eles para apaziguar, liberar ou pedir certas coisas. Eles são considerados os nossos guias, e são compostos por pessoas que conhecemos e que deixaram este planeta. Constelar uma questão não resolvida é semelhante a fazer uma cerimónia, conversar com um antepassado”. (Zondi-Rees, 2007)

“A crença nos ancestrais está enraizada na necessidade ou desejo de preservar a memória de gerações passadas conhecidas, e linhagens conhecidas ou desconhecidas. A ênfase em reconhecer os excluídos é o alicerce da cura para várias doenças, como desconforto corporal, discórdia espiritual ou necessidade comum de afastar o infortúnio ou uma maldição que será projetada por espíritos malévolos. Os bons espíritos são reconhecidos e agradecidos por meio de cerimónias ou rituais de limpeza”. (Mthembu-Salter, 2005).

 

2) o uso de adivinhação por curandeiros africanos tradicionais para receber as mensagens dos ancestrais “jogando os ossos”.

Os ossos consistem em símbolos para vários membros da família, bem como elementos simbólicos relacionados à vida de uma pessoa: dinheiro, amor, poder, órgãos do corpo, força vital, etc”. (Tanja, 2010)

 

Nas terapias africanas, a leitura dos ossos pode ser usada para localizar patologias. No entanto, é mais vital revelar um padrão de relacionamentos patológicos afetados – e recursos. Os ossos revelam rituais e muthi (medicina) para estabelecer relações familiares e ancestrais. Da mesma forma, uma constelação familiar revela desconforto e recursos dentro de toda a constelação – ao invés da patologia do paciente. Uma constelação revela remédios (“muthi espiritual”): como se curvar ou dizer certas frases – que na verdade são pequenos atos de ritual cerimonial – para estabelecer relacionamentos”. (de Wet, 2010).

 

Perante estas constatações, Tanja questiona o que fez Bert Hellinger não reconhecer esta conexão? E equaciona se não terá sido intencional, como forma de respeitar a tradição e os costumes sagrados africanos.

 

Mas então o que Hellinger aprendeu com os líderes espirituais locais, numa época em que se esperava que ele os convertesse às suas próprias crenças?

Foi esta questão que moveu Tanja a mais e mais investigações e, aos poucos, lhe permitiu aclarar o que havia intuído: a conexão entre a Constelações familiares e as tradições africanas de cura:

 

  1. Reconhecimento de que nossos ancestrais e familiares estão profundamente ligados ao bem-estar e à doença, e que o relacionamento é simbiótico e de recursos mútuos.
  2. Compreender que o indivíduo é parte integrante de sua família e linhagem ancestral e nunca pode ser desconectado dela.
  3. Alinhamento em termos de ordem na família – quem vem primeiro, linhagem geracional e continuidade da árvore genealógica; incluindo levar em consideração aqueles que ainda podem causar problemas até serem reconhecidos e reconhecidos.
  4. A importância do efeito da parte excluída, ou questões na vida de uma família e de uma pessoa, seja ela consciente ou inconsciente.
  5. Cura usando o simbolismo.
  6. A representação espacial e física dos membros da família e elementos intrapsíquicos de “arremesso dos ossos” são semelhantes à colocação de representantes em constelações familiares.
  7. Honrar os mais velhos e a hierarquia de pais e filhos.
  8. Conexão com o falecido e o lugar legítimo dos mortos.
  9. Colapso do passado, presente e futuro em tempo e lugar definido pelo ritual / constelação.
  10.  A prescrição de rituais e cerimónias como dever de casa após a consulta.

 

 

Constelações familiares como ritual

 

Os rituais fazem parte das tradições africanas. De acordo com as observações registadas, e com os ancestrais africanos curandeiros que consultou, Tanja relata que a Constelação Familiar é considerada um ritual de alto nível, o que significa que tem muito “calor aleatório”. (energias que podem facilmente ligar-se a outros vulneráveis ​​e torná-los suas famílias doentes).

 

“Havia regras rígidas para a preparação dos participantes e facilitadores, bem como para o espaço criado em torno do próprio ritual. É considerado irresponsável não ter conhecimento dos diferentes níveis do processo ritual, ao realizar o trabalho ancestral e de cura”.

À medida que foi tendo acesso a esta informações, Tanja diz que alterou a sua intenção inicial. E, em vez de procurar o conhecimento Zulu / Africano por trás das Constelações Familiares, passou a olhar para a sabedoria tradicional africana, e perceber que contributo trazia às Constelações Familiares. E foi assim que o conhecimento oculto começou a ser fonte de um profundo insight.

 

Acredito que muito do que foi deixado de fora do campo tradicional da Constelação Familiar, tem a ver com os limites exigidos para o trabalho ritual seguro, e com a estrutura clara de treino e iniciação exigida para a cura ancestral. Não estou a defender um retorno a estruturas autoritárias maiores, mas sim uma homenagem aos processos rituais e de iniciação, como um meio de apoiar a saúde dos facilitadores e de seus clientes, incluindo isso conscientemente em workshops e treinos” (Tanja 2010)

 

Saúde do facilitador, clientes e representantes

 

De acordo com Tanja, na tradição africana, as regras para ritual, cerimónia e trabalho ancestral incluem um diálogo com os ancestrais, antes do evento, abstinência sexual e limpeza corporal antes e depois do evento, bem como queima de ervas quando os espíritos dos ancestrais são invocados.

 

De acordo com a sua perspetiva ocidental, Tanja sugere a função desses rituais:

  1. Criar consciência e preparação antecipada do corpo e da mente, e enfatizar a importância do autocuidado antes e depois da constelação.
  2. Conexão consciente com os recursos para obter suporte e força.
  3. Centrar o cliente e criar consciência da profundidade da cura ancestral – uma experiência de limiar que não deve ser abordada levianamente.
  4. Marcar o evento no tempo (com início e um fim claros).
  5. Reconhecer o papel do corpo, os seus limites e a proteção energética.

 

“Observar estes cinco aspetos melhorou dramaticamente os meus próprios níveis de saúde e energia, e dos clientes. Alterei a maneira como entro nas oficinas como facilitador, e como introduzo o processo aos participantes”.

 

 

Treinamento do curador / facilitador

 

Na maioria das tradições africanas para ser um curandeiro ancestral é necessário passar por um intenso processo de treino e iniciação.

 

“O sangoma de treino ou thwasa permanece de joelhos – e desvia os olhos ao falar com as pessoas. Apesar do aparente desequilíbrio de poder da posição, é um espaço rico e carregado para explorar as fronteiras de comunicação e intimidade. É como ter aulas de direção no mundo espiritual. À medida que o thwasa, acompanhado pelo ancestral-guia, toma conhecimento, transforma a ordem com novos níveis de intimidade. ” (De Wet, 2010).

 

Eu observei thwasa cujos joelhos estão magoados e a sangrar, duros e com calosidades. Ao princípio achei que fosse um estranho poder autoritário exercido pelo professor, mas com o tempo passei a perceber que esse posicionamento é o principal movimento necessário para facilitar o trabalho ancestral. Lembro-me que Hellinger também foi iniciado de joelhos na Igreja Católica. E integrei o “ajoelhar”:

 

 

 

Depois de todas as ponderações e hesitações sobre a redação deste artigo, um aluno, que recentemente se formou como curandeiro tradicional africano, com ancestrais africanos e alemães semelhantes aos meus, colocou de forma simples: constelações familiares como um sistema, são um resultado da maneira como a alma germânica integrou aspetos da cultura africana”. (Tanja, 2010)

 

 

 

Assista à Live com Tanja Meyburgh aqui: https://youtu.be/aQjV3a5K1T4

 

Tanja Meyburgh  é também uma das palestrantes do CONGRESSO DE CONSCIÊNCIA SISTÉMICA

 

 

Participe no 2º CONGRESSO INTERNACIONAL DE CONSCIÊNCIA SISTÉMICA, consulte o programa AQUI!

 

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“Deus Não Está Morto” – A Visão e Contributo da Física Quântica por Amit Goswami, PhD

Amit Goswami é um professor de física reformado da Universidade de Oregon, onde serviu na faculdade, de 1986 até 1997.

Em 2009, ele iniciou um movimento chamado “ativismo quântico”, que se encontra a ganhar terreno na América do Norte e do Sul, no sul e leste da Europa e na Índia. Em 2018, junto com os seus colaboradores, ele estabeleceu o Quantum Activism Vishwalayam, uma instituição de educação transformacional na Índia, baseado em ciência quântica e na primazia da consciência. Este programa oferece programas de mestrado e doutoramento em Ciência Quântica da Saúde, Prosperidade e Felicidade sob os auspícios da University of Technology, Jaipur.

 

No âmbito da comemoração da Páscoa, convidamo-lo a partilhar a sua visão sobre Deus e como é que a Física Quântica contextualiza este conceito:

 

“Para além de imagens simplistas e muito diversas de Deus que todas as religiões dão oferecem ao apelo popular, ao nível do seu núcleo esotérico, todas elas  concordam que, para além das interacções materiais, existe outro agente de causalidade no mundo; e é a isto que chamam Deus.  As religiões também concordam que, para além do nível material da realidade, que experimentamos fora de nós, existem outros níveis subtis de realidade que experimentamos quando olhamos para dentro.  As religiões também concordam sobre um terceiro aspecto muito importante da divindade:  devemos tentar manifestar qualidades divinas – como por exemplo o amor, beleza, justiça, verdade e o bem, – nas nossas vidas.

 

Quando não há muito tempo, o filósofo Nietzsche declarou: “Deus está morto”, lamentou que as populares rendições religiosas de Deus fossem tão simplistas que já não podem guiar as pessoas para se aproximarem da divindade.  Isto é verdade.  No entanto, até hoje, muitos cientistas bateram num cavalo morto ao tentar refutar as populares imagens de Deus.  Isto não é de todo útil.  As verdadeiras questões, e todas estas são questões de ciência, são:

(1) Existe uma causa no mundo para além das interacções materiais?

(2) Existem níveis não-materiais subtis da realidade? 

E (3) Existe alguma justificação científica da ética, que nos obrigue a perseguir a divindade nas nossas vidas?

 

A maioria dos cientistas de hoje diz directamente “Não”, em resposta a estas perguntas, porque contradizem a sua metafísica do materialismo científico segundo a qual só existe matéria e as suas interacções, nada mais é real.  No meu livro, “Deus Não Está Morto”, também dou respostas, e todas elas são afirmativas.  Sim, existe Deus.

Porque (1) existe um agente de causalidade para além da interacção material; (2) o que experimentamos internamente são mundos não-materiais subtis; e (3) não só devemos perseguir a piedade nas nossas vidas como a nossa evolução nos está a levar a manifestações cada vez melhores de piedade.  No meu livro apoio estas afirmações tanto com teoria científica como com evidência empírica.

 

(…)

Vamos mais fundo.  Se nós (a nossa consciência) somos capazes de converter a possibilidade em realidade, a nossa consciência não pode ser um produto do cérebro ou qualquer outro objecto material, uma vez que todos os objectos materiais obedecem à física quântica e devem ser apenas possibilidades.  Portanto, a consciência como agente não-material de escolha é um agente causal!  Será que descobrimos Deus?

 

Não, dizem os cientistas, e até certo ponto eles estão certos.  O acima exposto levanta o paradoxo do dualismo, se pensarmos na consciência de escolha ou Deus como um agente separado de nós, como fazem as religiões populares.  Para ver isto, faça a simples pergunta: como é que um Deus não-material interage com o mundo material?  Não o pode fazer sem um mediador.  Mas um mediador requer energia.  E a energia do mundo físico é uma constante; a energia nunca passa do mundo material para um mundo de Deus e vice-versa.

(…)

No núcleo esotérico, os mestres das várias religiões compreenderam a situação na perfeição.  Deus não está separado do mundo material, é ao mesmo tempo transcendente e imanente.  Mas o que querem eles dizer?  Até há pouco tempo, tanto os cientistas como as pessoas comuns, não foram capazes de penetrar na sabedoria destas palavras.  Assim, os cientistas ignoram-nas e as pessoas comuns continuam a pensar em Deus como um agente duplo de causalidade.  A compreensão adequada da física quântica resolve o impasse.

 

Faz sentido, não faz?  E mais. Esta não localidade da nossa escolha da consciência é uma ideia experimentalmente verificável.  De facto, esta não-localidade foi verificada por cinco experiências diferentes de cinco grupos diferentes em cinco laboratórios diferentes, todos mostrando a transferência directa (sem sinais) da actividade eléctrica do cérebro de um sujeito para outro quando os sujeitos são correlacionados através da intenção meditativa.  Isto é relatado em “Deus Não Está Morto”.

 

As evidências empíricas dos corpos subtis abundam na saúde e cura, nos sonhos, no fenómeno da morfogénese biológica, na sobrevivência após a morte e reencarnação, só para citar alguns.

 

Mais uma vez, as provas científicas para Deus já estão aqui, portanto, o que devemos fazer a esse respeito?  Por um lado, devemos levar a sério os mestres religiosos e prestar atenção à ética.  Os valores – o amor, a beleza, a justiça, a verdade e o bem – de que a ética fala, são o que intuímos.  E existem muitas provas (por exemplo, nos fenómenos dos sonhos, criatividade e reencarnação) da importância e validade da ética tal como discutido no meu livro “Deus Não Está Morto”.

 

E mais.  Quando reconhecemos que a teoria de evolução contínua de Darwin é incompleta e a complementa com os saltos quânticos criativos descontínuos, descobrimos uma coisa espantosa.  A direcção da evolução biológica, de organismos simples a complexos, pode ser explicada.  Evoluímos da simplicidade para a complexidade, para podermos manifestar cada vez melhor as nossas experiências dos domínios subtis das possibilidades.  Em particular, neste momento estamos a evoluir no sentido de manifestar cada vez melhor as nossas qualidades divinas.

 

Disse o filósofo jesuíta Teilhard de Chardin “Um dia  aproveitaremos . . . as energias do amor”.  Teilhard estava certo.  Esse dia não está muito distante.”

 

Para ler o artigo na íntegra clique aqui  – Deus Não Está Morto – Amit Goswami, PhD

 

Pode assistir aqui à live de Maria Gorjão Henriques com Amit Goswami, sobre o tema da Física Quântica.

 

Amit Goswami é também uma das palestrantes do Congresso de Consciência Sistémica, no qual facilitará uma palestra e um workshop imersivo na área temática Consciência Sistémica.

Para consultar o programa completo do Congresso – clique aqui! 

 

 

 

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A Importância do Processo de Luto – Jean-Guillaume Salles

Jean-Guillaume Salles nasceu em 13 de abril de 1971, em França.
Cientista de formação, licenciado em Geofísica, encontra o seu verdadeiro caminho: a relação de ajuda, da abordagem da interação do corpo e da consciência. Vive um encontro fundamental com a Descodificação Biológica, que revoluciona a sua vida e a sua prática terapêutica. A investigação terapêutica com base nos critérios de eficácia, respeito e curiosidade, tornam-no especialista em PNL e Hipnose Ericksoniana.

 

 

No âmbito da comemoração da Páscoa, convidamo-lo a partilhar a sua visão sobre o Luto e o Renascimento, pelo que ele generosamente nos dá o seu testemunho:

 

 

“O termo luto” está sujeito a confusão, e isto pode inconscientemente ou conscientemente bloquear o processo de luto.

A confusão reside em acreditar que se eu chorar esquecerei a pessoa amada que morreu (também pode ser um animal); por outro lado, se eu deixar de sofrer pela ausência da pessoa amada, é como se esta não tivesse sido importante para mim, ou como se eu já não a amasse.

Mas o luto não tem nada a ver com isso, é simplesmente para deixar de sofrer pela ausência. Portanto, quando penso novamente no falecido, dentro de mim já não há essa dor, mas um desejo alegre.

 

Aceitemos esse desejo alegre como a melhor forma de honrar a memória da pessoa amada que perdemos!

Devo também referir a importância de lamentar simbolicamente, ou seja, lamentar um projecto de vida que não fomos capazes de levar a cabo, ou lamentar uma certa ideia de família em caso de divórcio, lamentar a nossa vida profissional quando nos reformamos, ou um país que tivemos de deixar, entre outros.

Nesse caso, é muito importante definir o mais precisamente possível o objecto do nosso luto, a fim de não o confundir com uma parte de nós mesmos. Não podemos curar matando partes de nós próprios, mas curando-as… por isso não temos de chorar uma parte de nós próprios, mas sim “períodos de vida”.

A segunda coisa é simbolizar o objecto de luto, porque o símbolo é a linguagem do nosso inconsciente, e ao fazer este trabalho de simbolizar o objecto de luto (vida profissional, viver num lugar…) o símbolo escolhido vem muitas vezes falar de si mesmo e dá-nos informações interessantes.

E, finalmente, reconhecer o que aquela parte da vida que temos de lamentar nos ensinou. Porque, reconhecendo a aprendizagem, podemos lamentar e sair ricos e crescidos dessa experiência para estarmos disponíveis para outras aventuras.

 

Esta parte do luto simbólico é algo que não estamos necessariamente habituados a ter em consideração, e que, creio, é importante para evoluir e viver mais facilmente. Creio que se formos capazes de ter em consideração este processo de luto simbólico e de fazer um ritual para o tornar concreto, estaremos mais disponíveis e abertos à mudança.
Recordemos aquela frase do Buda que diz algo que vai no sentido desta ideia: “Na vida, a única coisa que é permanente é a impermanência.”

Então, sempre que queremos agarrar-nos a algo ou congelar coisas, não nos opomos ao fluxo da Vida? 

 

Pode também assistir à live de Jean-Guillaume Salles com Maria Gorjão Henriques sobre o tema Transgeracional.

 

 

Jean-Guillaume Salles é também uma das palestrantes do Congresso de Consciência Sistémica, no qual facilitará uma palestra e um workshop imersivo na área temática Consciência Sistémica.

Para consultar o programa completo do Congresso – clique aqui! 

 

A Importância do Processo de Luto

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O Papel do Pai, segundo Joaquim Parra Marujo

 

Joaquim Parra Marujo é psicoterapeuta transpessoal, professor universitário, diretor e investigador da Unitranspessoal: Unidade de Investigação-ação de Psicologia Transpessoal e Gerontologia.

 

No âmbito da Semana do Dia do Pai, convidamo-la a partilhar a sua visão sobre o que é Ser Pai nos dias de hoje, pelo que ele generosamente nos deixou este testemunho:

 

“Queridíssimo pai,

Perguntaste-me, há pouco tempo, por que razão afirmo ter medo de ti. Como de costume, não soube responder; por um lado, precisamente pelo medo que tenho de ti, por outro, porque, na base deste medo, existem demasiados pormenores para que possa exprimi-los oralmente, de forma mais ou menos lógica. E se neste momento procuro responder-te por escrito será de forma bastante incompleta porque, também por escrito, o medo e as suas consequências me tolham diante de ti e porque, enfim, a importância do assunto ultrapassa, de longe, a minha memória e o meu entendimento. (…). É claro que as coisas podem não se ajustar na realidade como as provas que apresento na minha carta, a vida é mais do que um jogo de paciências; mas com a retificação resultante desta resposta, uma retificação que não posso nem quero prosseguir em detalhe, aproximou-se, em minha opinião, tanto da realidade que poderá proporcionar algum sossego e facilitar, a ambos, a vida e a morte.”

Franz Kafka, Carta ao Pai (Brief an den Vater, 1919)

 

Na arte, do método sistémico-fenomenológico e na ciência constelativa procura-se, na fase inicial, a “cura” da floresta (a família passada) e, posteriormente, na fase final, curar a árvore que está adoecer e/ou doente (a família atual, a pessoa). Isto é, trabalha-se os níveis instintivos, freudiano, linguístico, cognitivo, existencial e espiritual, ou seja, é um fenómeno sistémico-fenomenológico, existencial, transpessoal e integrativo.

As constelações sistémicas (familiar, organizacional e educacional/pedagógica) não são uma terapia nem uma intervenção psicoterapêutica, mas, simplesmente, uma técnica e um método para o insight de novos caminhos de bem-estar e de felicidades e de integração, no sistema familiar, dos nossos ancestrais e da família atual.

As constelações sistémicas são um método para alcançar metas previamente definidas, isto é, para gerar mudanças no comportamento do adoecer ou do mal-estar de quem pede a constelação (portador do sintoma).

Numa constelação, como método terapêutico, estabelece-se o setting (como cenário holístico-terapêutico) no momento em que os papéis são distribuídos e especificados. É um marco que tem como objetivo a escolha dos papéis dos representantes que foram dados pelo participante (constelante) em que o terapeuta é, puramente, um facilitador dos processos.

O método terapêutico da constelação desenvolve-se, com base na análise sistémico-fenomenológico da narrativa do constelante, sobre o impacto existencial dos problemas/sintomas que afetam a relação consigo próprio, com o outro e com o eco-sistema em que vive, coabita, coexiste e se movimenta. E, é neste caminhar que se abre o caminho para compreender o papel do Pai, num sistema familiar. 

 

Atualmente, ainda, não existe fecundação/conceção (nos seres humanos) sem haver um Pai e uma Mãe. 

 

O fruto (a criança), gerada nesta relação (amorosa ou não), hereditariamente comporta 50% de cada progenitor, assim como, toda uma história transgeracional e psicogeneológica por desvendar.

Para Bert Hellinger “somente na mão do pai a criança ganha um caminho para o mundo” e para que a criança aprenda a caminhar, pé ante pé, terá de interiorizar a seguridade e a representação social do papel masculino do Pai e consciencializar-se da importância do nutrir e do cuidar da mãe, assim como, a aprendizagem do papel do feminino.

Apesar do advento das neossexualidades, a noção de masculinidade e feminilidade são de extrema importância para a criança.

As neossexualidades conflituam nas fronteiras entre o masculino e o feminino, abrindo novos horizontes para as constelações familiares.

Nos tempos atuais, o Pai, assume cada vez mais comportamentos de cuidar e nutrir similares à Mãe e são, cada vez mais, atenciosos e meigos para com as crianças, esbatendo as velhas referências identificadoras. 

A grande questão que quero problematizar, quer para a criança, quer no processo constelativo é que a identidade masculina é cultural e socialmente construída. Destarte, pergunto quando perguntar, ainda, não ofende: 

 

  1. Qual será a fronteira entre o masculino e o feminino e que seja válido para a definição de masculinidade e feminilidade na criança?
  2. Como será a construção da identidade masculina e feminina da criança?
  3. Qual o papel do Pai numa relação homossexual masculina e na feminina?
  4. Numa relação amorosa em que hajam filhos “os meus, os teus e os nossos” como será a imagem de cada pai em cada uma das crianças?

Não tenho dúvidas que, na modernidade, os Homens estão cada vez mais conscientes do seu papel como cuidadores afetuosos, meigos e carinhosos para com os seus filhos e com um empower, na condução da sua família, garantido a construção de uma nova identidade masculina, na sociedade contemporânea, onde os homens, também, podem expressar os seus sentimentos, as suas fraquezas, os seus medos e as suas emoções permitindo-lhes tocar, acariciar, sentir, emocionar e chorar como as mulheres.

 

A hipervirilidade do Homem do passado onde imperava a audácia, a agressividade, a ousadia, a violência e a coragem esfumou-se e esboroou-se.

 

Bert Hellinger disse que: “Somente na mão do pai a criança ganha um caminho para o mundo. As mães não podem fazê-lo. O amor dele não é cuidadoso nesta forma como é o amor da mãe. O Pai representa o espírito. Por isso o olhar do pai vai para a amplitude. Enquanto a mãe se move dentro de uma área limitada, o pai nos leva para além desses limites para uma amplitude diferente.”

 

Por entender, a importância, nas constelações familiares sobre a construção da identidade masculina/feminina quero referenciar Robert Stoller (um dos maiores especialistas sobre a masculinidade e a feminilidade) que estabelece uma relação direta entre identidade de género e identidade sexual arrolando que é:

 

  • Uma energia procedente entre os cromossomos masculinos e femininos (identidade biológica);
  • Uma indicação do sexo da criança que, por sua vez, é resultante da observação dos genitais externos (identidade anatómica);
  • Uma influência de atitudes dos pais e amigos e a interpretação dessas perceções por parte da criança (processos de socialização);
  • Fenômenos bio psíquicos precoces (efeitos pós-natais), causados por padrões de embalar, de sentir e estar com a criança;
  • O desenvolvimento do ego, ou seja, qualidades e quantidades de sensações/perceções que a criança interioriza (processo de identificação – uma das propriedades do complexo edipiano).

Uma das funções, do pai, é separar a criança da mãe a partir dos 3 anos de idade para promover o desapego da mãe e criar o sentimento de segurança e de disciplina para que o “fogo” do pai se harmonize com a “terra” da mãe. Isto é, para que o nosso herói, o Pai, nos ensine a caminhar, nos limites do Yin e do Yang, para a construção de uma “forte” personalidade para enfrentar um mundo agreste do poder das masculinidades institucionais. É neste processo que o menino se identificará com a masculinidade Pai e a menina com a feminilidade da Mãe.

 

Estas duas forças são complementares compondo tudo o que existe para caminhar na trajetória vital. Este equilíbrio, são forças de movimentos e de mudanças para um destino equilibrado entre o Dar e o Receber. Entre estas duas forças, está a vida da criança, para que ela possa respirar e unir-se no amor incondicional dos seus progenitores. Ou seja, a criança caminha, no caminho do meio, para aprender o valor do amor, do carinho, da afeição, da confraternização, da solidariedade, do companheirismo, da fraternidade, da tolerância e da liberdade de ser ELA (a criança interna) dentro de um adulto construtor/edificador de uma nova sociedade.

Quero, também, ressaltar que o pai e a mãe são iguais, com primazias iguais e igualmente grandes. Porém, é no ventre materno, o único lugar, na infinitude do universo cósmico e na finitude do universo terreno, que é asséptico que a criança será gerada (um “ET” que viajará pelo éter transgeracional de milhões de ancestrais) que irá desenvolver-se e, enamorar-se pela sua mãe que, lhe dará a oportunidade de ser alimentado, direi mesmo, nutrido de alimentos diversos como de toque, carinho, ternura, meiguice e o simbolismo da palavra.

 

Para Bert Hellinger “sem pai, sem vida. Sem pai, sem felicidade”, ou seja, a não-identificação ao Pai leva a criança/adulto a procurar modelos culturais identificativos e agentes de mudança em heróis de “banda desenhada”. Isto é, não somos adultos felizes, independentes e mais “completos” (sadios). É, primordial, valorizar e aceitar o Pai para caminhar para o bem-estar e para a felicidade. Romper com o pai ou com um ancestral é a rutura do sistema familiar para viver nas “trevas” de abandonos, de conflitos profissionais e familiares e o adoecer e a doença será, muitas vezes, um caminho. Para Bert Hellinger “tudo aquilo de que me lamento ou queixo, quero excluir. Tudo aquilo a que aponto um dedo acusador, quero excluir. A toda a pessoa que desperte a minha dor, estou a excluí-la. Cada situação em que me sinta culpado, estou a excluí-la. E desta forma vou ficando cada vez mais empobrecido.

 

O caminho inverso seria: a tudo de que me queixo, fito e digo: sim, assim aconteceu e integro-o em mim, com todo o desafio que para mim isso representa. E afirmo: irei fazer algo com o que me aconteceu. Seja o que for que me tenha acontecido, tomo-o como a uma fonte de força. É surpreendente o efeito que se pode observar neste âmbito.

 

Quando integro aquilo que antes tinha rejeitado, ou quando integro aquilo que é doloroso para mim, ou que produz sentimentos de culpa, ou o que quer que me leve a sentir que estou a ser tratado de forma injusta, o que quer que seja… quando tento incorporar tudo isso, nem tudo cabe em mim. Algo fica do lado de fora. Ao consentir plenamente, somente a força é internalizada. Todo o resto fica de fora sem me contaminar. Ao invés, desinfeta, purifica-me. A escória fica de fora, as brasas penetram no coração.”  

 

A fundamental função do Pai, no sistema familiar é apoiar a mãe durante os primeiros anos da criança, para que harmonia familiar contribua para que a criança aceite, igualmente, o Pai e a Mãe. Não aceitar o Pai é abandonar a vida e não aceitar a mãe é a rejeição do seu propósito vivencial. Ou seja, serão adultos sem afetividade e sem a oportunidade de amarem e serem amados.

 

Quando não amamos (não-aceitamos) o pai, sentiremos o sentimento de abandono e abandonamo-nos a nós mesmos e, quando não amamos a mãe vivemos num vazio existencial de rejeições, de confusões e conflitos com as pessoas que queremos amar.

 

Aceitar o Pai (amar) é ter o sentimento de realização, no trabalho e o respeito pelas figuras de autoridade. Ao aceitar a Mãe é sentir o sentimento de integração social e perceber o prazer de estarmos inseridos e integrados no mundo onde a prosperidade frutificará em frutos quer económicos, quer familiares, quer culturais, sociais e espirituais. 

 

Antes de sermos concebidos, vivemos no éter do macrocosmo e aí, escolhemos, em primeiro lugar, a terra (o País) onde iremos aterrar e, depois, os nossos pais para com eles conviver e coexistir e sentirmos as feridas emocionais que não resolvemos noutras vidas como: o abandono, a rejeição, a injustiça, a traição, a humilhação, a co-dependência, etc. 

 

A relevância do Pai, no sistema familiar, assenta numa trilogia: a autoridade (disciplina), a ajuda e a maturidade para que a criança se torne adulta. Isto é, no encontro entre o Pai e a Criança, haverá um encontro a dois, “olho no olho. Cara a cara. E quando estiveres perto eu arrancarei os teus olhos. E os colocarei no lugar dos meus. E tu arrancarás os meus olhos. E os colocarás no lugar dos teus. Então, eu te olharei com os teus olhos e tu olharás com os meus” (Jacob Levy Moreno).

 

Para finalizar um texto de J.J. Neto sobre o Pai e a Carta de Bert Hellinger ao seu Pai.

 

“um Pai vem do amor, ainda que tenha em sua vida experimentado a dor.

O pai vem do homem, ainda preso na armadura do herói para qualquer situação.

Um pai vem do mundo, e por isso está autorizado a nos mostrar a ele.

Um pai vem de uma infância, e lá guardou algumas de suas melhores e também mais difíceis experiências.

Um pai vem do silêncio, pois sabe que certas coisas pertencem somente a si.

Um pai vem da responsabilidade, pois antes do seu prato tem outros para encher.

Um pai vem da solidão, do seu masculino ainda selvagem e autoritário.

O pai vem da lei, da cultura e do tempo que vive.

O pai é a lei.

O pai vem da vulnerabilidade, que ninguém nota. E assim ele aceita e segue.

O pai vem de seu pai e sua mãe, e como um filho, carrega também as dores de sua pequena criança.

O pai vem da surpresa e do medo.

Ele, um homem bem comum e que viveu tanto, dizendo sim para o que surgiu, nos faz chegar nele.

A nós, como filhos, fica somente a possibilidade de dizer sim a ele. E aceitar os presentes que este ato nos traz”.

 

A carta de Bert Hellinger (no livro – “As Igrejas e o Seu Deus”) ao seu Pai:

 

Dedico este livro a meu pai Albert Hellinger (1895-1967), com uma carta:

Querido papai,

Por muito tempo eu não soube o que me faltava mais intimamente.

Por muito tempo, querido papai, você foi expulso de meu coração.

Por muito tempo você foi um companheiro de caminho para quem eu não olhava, porque fixava meu olhar em algo maior, como me imaginava.

De repente, você voltou a mim, como de muito longe, porque minha mulher Sophie o invocou.

Ela viu você, e você me falou por meio dela.

Quando penso o quanto me coloquei muitas vezes acima de você, quanto medo também eu tinha de você, porque muitas vezes você me batia e me causava dores, e quão longe eu o expulsei de meu coração e tive de expulsá-lo, porque minha mãe se colocava entre nós; somente agora percebo como fiquei vazio e solitário, e como que separado da vida plena.

Porém, agora você voltou, como que de muito longe, para minha vida, de modo amoroso e com distanciamento, sem interferir em minha vida.

Agora começo a entender que foi por você que, dia a dia, nossa sobrevivência era assegurada sem que percebêssemos em nosso íntimo quanto amor você derramava sobre nós, sempre igual, sempre visando o nosso bem-estar e, não obstante, como que excluído de nossos corações

Algumas vezes lhe dissemos como você foi um pai fantástico para nós?

Você foi cercado de solidão e, não obstante, permaneceu solícito e amoroso a serviço de nossa vida e de nosso futuro.

Nós tomávamos isso como algo natural, sem jamais honrar o que isso exigia de você.

Agora me vêm lágrimas, querido papai.

Eu me inclino diante de sua grandeza e tomo você em meu coração.

Tanto tempo você esteve como que excluído do meu coração.

Tão vazio ele estava sem você.

Também agora você permanece amigavelmente a uma certa distância de mim, sem esperar de mim algo que tire algo de sua grandeza e dignidade.

Você permanece o grande como meu pai, e tomo você e tudo que recebi de você, como seu filho querido.

Querido papai,

Seu Toni (assim eu era chamado em casa).”

 

 

Joaquim Parra Marujo é também uma das palestrantes do Congresso de Consciência Sistémica, no qual facilitará uma palestra e um workshop imersivo na área temática Povos, Nações e Territórios.

Para consultar o programa completo do Congresso – clique aqui! 

 

 

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